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Rosto paterno

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)


É difícil falar de Deus na nossa linguagem humana. Mas, chamar a Deus de Pai, foi o próprio Filho, mandado por Ele, com forma ou natureza humana, que nos ensinou a chamá-lo assim. Apesar disso, temos também, na figura feminina, o modo humano de chamarmos e termos as qualidades divinas também maternas.
Deus é superior à nossa modalidade de nos relacionarmos com Ele. Mas, em nossos limites, apesar de filhos, por dádiva de filiação adotiva, temos na figura do pai uma relevância muito importante na formação da família. Muitos querem, dentro do naturalismo, relativizar de modo excessivo, a importância do pai. No entanto, seu papel é intimamente exercido para a formação da personalidade dos filhos, a ponto de lhes dar segurança afetiva, social e exemplar educação deles, juntamente com a esposa. Isso é um dado da natureza da família, que, bem desenvolvida, coloca as bases da formação do caráter e da sustentabilidade do equilíbrio humano-afetivo de todos na família. Quando a paternidade é bem exercida, temos chance de boa imitação e orientação de filhos saudáveis.
O rosto paterno de Deus se mostra aos filhos que somos, de modo amoroso e compassivo, a ponto de termos nele a segurança total de vida bem encaminhada e de felicidade plena para todos. Ele nos criou para sermos sua imagem e semelhança. Nosso esforço para seguir suas instruções e também o imitarmos para amar e construir a vida de convivência humana, leva-nos a desenvolver muitas virtudes. Dentre elas se destacam a compaixão, a misericórdia, a promoção da justiça e do bem comum. Com isso seremos recompensados já aqui na terra, e, depois, com o prêmio eterno. Nosso desafio é aceitar a paternidade divina com correspondência ao amor de Deus.
Quando realmente fazemos a experiência de intimidade do amor divino, tornamo-nos pessoas que também mostram a face amorosa de Deus para o semelhante. Os outros nos vêem como pessoas do bem, com colaboração para um convívio de promoção do semelhante, a partir de iniciativas de inclusão social, do interesse por ajudar quem é mais carente social, econômica e espiritualmente. Desta forma, comportamo-nos como gente altruísta e de colaboração com a promoção humana, com o serviço ao bem comum e solidária com a causa dos mais fragilizados, como o próprio Deus é misericordioso conosco, qual pai do filho pródigo.
Na conversa com Abraão Deus prometeu-lhe não destruir as cidades de Sodoma e Gomorra se encontrasse nelas ao menos dez pessoas de bem. Mas só encontrou o sobrinho dele, Lot, com a mulher Sara (Cf. Gênesis 18,20-32). Deus quer nosso bem e que nos salvemos da vida sem sentido e tenhamos depois a recompensa. Mas precisamos fazer da cidade terrestre um convívio conforme o projeto divino. Ele a todo momento nos adverte, em nossa consciência, através de pessoas de boa consciência, de sua Palavra e de sua Igreja, a assumirmos os valores inerentes às leis próprias da natureza e os revelados por seu Filho. Ele  nos mostra a face do Pai.
O que em nós ainda não se amoldar com o projeto do Pai, é sepultado e mudado pelo batismo, que nos faz limpos espiritualmente e nos torna parecidos com Ele para vivermos a vida convertida para o amor (Cf. Colossenses 2,112-14). Somos santificados por Ele, que é santo e nos faz inserir em seu Reino. Assim, superamos a tentação de vivermos somente pensando em nós egoisticamente, com as conseqüências de pecado e iniqüidade. Somos convertidos para uma vida santificada e de promoção do bem de todos, conforme o próprio Jesus nos ensina no “Pai nosso” (Cf. Lucas 11,1-13).

Tu es Petrus

Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney


Hoje celebraremos a festa de São Pedro, apóstolo escolhido por Jesus para ser seu vigário aqui na terra (“vigário”, o que faz as vezes de outro), seu representante e chefe da sua Igreja. São Pedro era pescador do lago de Genesaré ou Mar da Galileia, junto com seu irmão, André, e seus amigos João e Tiago. Foi ali que Jesus o chamou: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram” (Mt 4, 19-20).
Pedro se chamava Simão. Jesus lhe mudou o nome, significando sua missão, como é habitual nas Escrituras: “Tu és Simão, filho de João. Tu te chamarás Cefas! (que quer dizer Pedro - pedra)” (Jo 1, 42). Quando Simão fez a profissão de Fé na divindade de Jesus, este lhe disse: “Não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as forças do inferno não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus (a Igreja): tudo o que ligares na terra será ligado nos céus e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 13-19).
Corajoso e com imenso amor pelo Senhor, sentiu também sua fraqueza humana, na ocasião da prisão de Jesus, na casa de Caifás, ao negar três vezes que o conhecia. “Simão, Simão! Satanás pediu permissão para peneirar-vos, como se faz com o trigo. Eu, porém, orei por ti, para que tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 31-32).  E Pedro, depois de ter chorado seu pecado, foi feito por Jesus o Pastor da sua Igreja. 
São Pedro, fraco por ele mesmo, mas forte pela força que lhe deu Jesus, representa bem a Igreja de Cristo. “Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica, edificada por Jesus Cristo sobre a pedra que é Pedro... Cremos que a Igreja, fundada por Cristo e pela qual Ele orou, é indefectivelmente una, na fé, no culto e no vínculo da comunhão hierárquica. Ela é santa, apesar de incluir pecadores no seu seio; pois em si mesma não goza de outra vida senão a vida da graça. Se realmente seus membros se alimentam dessa vida, se santificam; se dela se afastam, contraem pecados e impurezas espirituais, que impedem o brilho e a difusão de sua santidade. É por isso que ela sofre e faz penitência por esses pecados, tendo o poder de livrar deles a seus filhos, pelo Sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo” (Credo do Povo de Deus).
 “Enquanto Cristo ‘santo, inocente, imaculado’, não conheceu o pecado, e veio expiar unicamente os pecados do povo, a Igreja, que reúne em seu seio os pecadores, é ao mesmo tempo santa, e sempre necessitada de purificação, sem descanso dedica-se à penitência e à renovação. A Igreja continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a paixão e a morte do Senhor, até que ele venha. No poder do Senhor ressuscitado encontra a força para vencer, na paciência e na caridade, as próprias aflições e dificuldades, internas e exteriores, e para revelar ao mundo, com fidelidade, embora entre sombras, o mistério de Cristo, até que no fim dos tempos ele se manifeste na plenitude de sua luz” (Lumen Gentium, 8). 

Deus nos fez livres

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá (PR)

 

Há pouco tempo estive em visita a uma família e na conversar o pai disse: “O meu filho chegou da universidade dizendo que Deus não existe. Perguntei: Por quê? Ele me respondeu: Deus é uma invenção para controlar a nossa liberdade, não deixando a gente fazer o que quer”.
Diante desta resposta o pai tentou explicar as suas razões, sem muito êxito. Fiquei pensando depois sobre a experiência  deste jovem que apenas  iniciou os estudos na universidade e de repente muda  conceitos de vida, valores humanos e espirituais, simplesmente por alguns “iluminados” teóricos, ratões de bibliotecas, e colecionadores de ideologias, achando-se donos da verdade e da consciência dos outros.
Tenho a impressão que a onda de ateísmo entre jovens universitários está na falsa compreensão de liberdade e até mesmo na tentativa de ser diferentes com o propósito de mudar o mundo destruindo valores, sem uma proposta concreta de vida que valha a pena viver.
Nós somos feitos livres e para  a liberdade que Deus nos fez. “Vivam como pessoas livres, mas não usem a liberdade como desculpa para fazer o mal; vivam como servos de Deus” (1 Pe. 2, 16).
Deus nos fez livres para fazer o que queremos, e para ser quem queremos, e também para fazer as escolhas que queremos, porém essa liberdade não me dá o direito de dar asas a todos os desejos e sentimentos por mais legítimos que sejam. Deus não controla ninguém. Ele ama simplesmente, sem medida e para sempre.
“De todas as faculdades que Deus nos deu, a que mais nos assemelha a Ele é a liberdade; nenhuma outra criatura no mundo a tem. Podemos até dizer a Deus, como os anjos maus: ‘não vos servirei!’” (Jer 2, 20).
E Deus respeita. Esses anjos maus foram criados bons e belos, mas, usando mal da liberdade quiseram ser como Deus, não se aceitaram como belas criaturas apenas. É o orgulho! O pior pecado. O pecado é o abuso da liberdade, dizia Santo Agostinho.
“Deus não nos deu liberdade para fazer o mal, mas só o bem” (Prof. Dr. Felipe Aquino).
Deus não tira a liberdade, ao contrário: faz-nos livres e nos liberta das escravidões puramente humanas. Deus quer que sejamos capazes de amar e ser amados de forma livre. O que falta hoje para muitos jovens é fazer a experiência do amor de Deus, através do amor humano.
Em muitos casos os jovens nunca foram amados como deveriam.  Não somos teleguiados ou marionetes nas mãos do Criador. “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gal 5,1). “Vós fostes chamados à liberdade irmãos. Entretanto que a liberdade não sirva de pretexto para a carne, mas, pela caridade, colocai-vos a serviço uns dos outros”  (Gal 5,13).
 “E Jesus dizia aos judeus que nele creram: Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos livrará. Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo. Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres.” (João 8, 31ss). Portanto cabe à nossa liberdade de seres humanos, as escolhas e suas consequências. Jamais seremos livres negando a existência de quem me fez à Sua imagem e semelhança. Negar a existência de Deus é negar a existência do ser humano em sua plenitude e harmonia. Deus nos fez livres, inclusive para aceitar ou não o Seu amor. Isso é vida, isso é ser humano completo. Deus te ama e quer que você tenha e viva a verdadeira liberdade. Boa semana!

Arrependimento

Dom José Alberto Moura 
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG)

O rei Davi cometeu um grave pecado, o de mandar matar Urias e ficar com sua mulher. O profeta Natã, recebeu a incumbência divina de lhe dizer sobre as conseqüências morais e sociais de sua insanidade. No ato o monarca reconheceu o grande pecado e se arrependeu. O emissário de Deus comunicou-lhe o perdão divino, mas com a penalização suficiente para a aprendizagem de não incorrer novamente em delito semelhante (Cf. 2 Samuel 12,7-13)
Se Deus se vingasse de nós estaríamos perdidos. Ele está sempre disposto à misericórdia. Sua justiça é diferente da nossa. É misericordiosa. Isso não significa deixar-nos continuando a cometer erros e pecados. Exige conversão, arrependimento e manifestação de amor, apesar de o pecador ainda estar sujeito aos próprios erros. A nossa justificação depende do amor divino, que espera sinal de nossa vontade em também nos esforçar para tentarmos corresponder ao amor infinito de Deus.
Mas o amor divino sempre exige uma hipoteca ou um compromisso nosso: o de também amarmos o semelhante. É o que Jesus nos ensina na oração do Pai Nosso: perdoai-nos, como também perdoamos. Em relação ao semelhante, de ambas as partes o arrependimento das falhas é fundamental para que a humildade seja uma atitude que leve cada um a reconhecer que não é superior ao outro. Somos todos pecadores e precisamos de nos entender e converter para um convívio de irmãos. Até na família mais tranquilha existem momentos de fragilidades e atitudes de incompreensões. Por isso, é preciso haver paciência, compreensão, correção e perdão. Qual pai ou mãe que não quer o bem dos filhos e até perdoa suas falhas? A correção com amor inclui a formação para o arrependimento e mudança de atitudes. O bem do outro é promovido na correção caridosa para seu futuro melhor!
O fingimento de estar arrependido só para levar vantagem, de qualquer tipo, não leva à credibilidade de quem o faz. Com o tempo o que é oculto vem a ser revelado, mais cedo ou mais tarde, até na justiça humana. O arrependimento verdadeiro leva a pessoa a mudar realmente de vida e se pautar por um caminho adequado a se assumirem valores éticos e morais.
Todo delito deve ter sua penalização, para a pessoa se treinar na nova modalidade de conduta. Mas tal pena deve ser educativa e corretiva. Na aplicação das leis civis muitas vezes a penalização é vingativa e não corretiva, como vemos no sistema carcerário. É preciso haver mudança radical nesse sistema, que, às vezes, se torna escola de pós-graduação em maior criminalidade!
Jesus mostra como se deve agir com a pessoa pecadora que se arrepende. Ele foi tomar refeição na casa de um fariseu. Ali u’a mulher pecadora banhou seus pés com as lágrimas, enxugou-os com seus cabelos e neles colocou perfume. O homem que o hospedava conhecia a pecadora e pensou que o Mestre, se fosse mesmo profeta, saberia quem era a mulher e não a deixaria fazer o que estava realizando. Mas Jesus provou-lhe que, sim, ele bem sabia e desafiou-o a se pronunciar sobre quem mais amava: quem tem mais culpa e recebe o perdão ou quem de menos culpa? (Cf. Lucas 7,36-45) À resposta óbvia do fariseu Jesus replicou: “Você não me ofereceu água para lavar os pés e ela o fez com suas lágrimas e os enxugou com seus cabelos... Aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor!”(Lucas 7,44).
Nós nunca perdemos nada em nos arrepender das falhas, tentando corrigi-las. Sabemos que disso vêm as conseqüências benéficas para nós e para os outros. Sabemos que podemos contar com a graça de Deus e também com a compreensão do semelhante!

Brasil: fatos que fazem pensar

Cardeal Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo


Nessas últimas semanas, estamos sendo bombardeados com regularidade por notícias sobre fatos de corrupção na vida política brasileira, envolvendo os mais altos escalões. O afastamento temporário da Presidente da República não acalmou os ânimos: pelo contrário, mais e mais vai se aprofundando a impressão de que vivemos uma crise política, econômica e ética sem precedentes em nosso país.
As delações premiadas de personagens ilustres, sobre escândalos de corrupção na administração da Petrobrás envolvem lideranças dos mais variados partidos, que também atuam nos mais altos cargos das Instituições da República. Ministros do governo interino da República, Presidente da Câmara e do Senado, lideranças partidárias, parlamentares, gestores da administração pública: sobram suspeitas para todos. Resta ver, se a Justiça vai dar conta de investigar e elucidar tudo devidamente.
O estrago, no entanto, já é muito grande; o pior é o desencanto dos cidadãos com a Política e os políticos. Perplexas, as pessoas se perguntam: em quem ainda se pode confiar? A tentação, sempre insinuante, é a invocação de “homens fortes”, ou “salvadores da pátria”, que venham resolver de maneira autocrática e voluntarista os problemas pendentes do país. Os discursos inflamados e acusatórios, as propostas populistas e privas de realismo conseguem fácil adesão; o clima de frustração e desmoralização no exercício da política pode favorecer o surgimento de ditadores e de totalitarismos. E não é isso que falta ao Brasil.
Por mais que seja defeituoso o funcionamento das instituições do Estado democrático de direito, essas sempre são preferíveis ao Estado autoritário e limitador dos direitos individuais e das liberdades democráticas. Neste momento, mais do que nunca, é necessária a vigilância atenta do povo para monitorar e acompanhar os passos e decisões das instituições do Estado e o exercício da política. A crise política que vivemos decorre de uma profunda crise ética, refletida no desvio de finalidade do poder conferido, mesmo democraticamente: poder, que deveria ser sempre exercido em vista do bem comum e não, para o benefício privado, ou de grupos de poder e influência.
Mas não se deve perder a esperança: a situação que vivemos também é favorável a um amadurecimento da consciência política do povo brasileiro. À medida que os cidadãos se interessam pela vida política, vigiam o exercício do poder e se envolvem na busca de soluções, o futuro do Brasil continua promissor; a própria investigação dos desvios e dos fatos de corrupção na política e na administração pública ajuda a conscientizar sobre a necessidade de mudanças e de superação de padrões arcaicos e corruptos na vida política brasileira.
Também faz pensar, e muito, a chocante notícia do estupro coletivo de uma jovem de 16 anos, no Rio de Janeiro, na semana que passou. Autores da barbárie repugnante ainda se gloriaram, a ponto de postar imagens e gravações de sua ação depravada nas mídias sociais. A condenação foi geral, ainda bem! É de se esperar que os fatos sejam devidamente elucidados e os autores, confrontados com suas responsabilidades.
O fato merece uma reflexão sobre o nível de corrupção dos costumes a que se chegou, envolvendo o tráfico de drogas, o uso de armas, a violência, o desrespeito à pessoa, levando a práticas sexuais depravadas (dá para chamar diversamente?!), e à “coisificação” da mulher, feita objeto de uso e de abuso... Foi um fato isolado? As manifestações vindas de vários lados referem-se a certa “cultura do estupro”, que estaria ligada à persistência de uma cultura machista. É bom que se façam todas as avaliações pertinentes. E que se passe às consequências, não apenas com leis repressivas mais severas. É preciso também refletir sobre a educação dada nas famílias, instituições de educação e mecanismos de formação da cultura e dos costumes.
Não posso deixar de aludir à necessidade de uma adequada educação para as implicações morais das nossas decisões e ações pessoais. O Papa Francisco trata disso na Exortação “Amoris laetitia, sobre o amor na família”. No mesmo documento, Francisco trata da correta educação sexual a ser dada às crianças e aos adolescentes (cf AL 280-286). “Quem ainda fala disso?” – questiona o Papa. É possível que a educação da consciência moral seja absolutamente inadequada ou até, inexistente; e que a educação sexual seja deixada por conta do material pornográfico, amplamente comercializado com grandes lucros para seus autores e imensos danos para os costumes. Isso também é parte de um sistema corrupto. Vale a pena pensar sobre isso?

Construir pontes e não atalhos

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá (PR)


Diante de todos os fatos que fazem história em nosso país, e fazem toda a nação permanecer perplexa sem saber o que vai acontecer, nasce em todos nós um sentimentos de insegurança e instabilidade que não contribui em nada. Por outro lado não dá pra ficar em cima do muro esperando acontecer, é preciso agir, buscar, fazer a nossa parte e acreditar que pessoas mudam e mudanças são necessárias.
A nossa confiança vem do Senhor: “Colocai em mim todas as vossas preocupações” (Mt 11,28); porém em tempos difíceis, sempre esperamos tempos melhores. A Palavra de Deus nos alerta: Maldito o homem que confia no homem” (Jer 17,5). Como diz o dito popular: “Confie sempre, mas com um pé atrás”.
Em tempos difíceis, um caminho prudente e eficaz é buscar ajuda, pedir socorro, somar forças, construir pontes que conduzam a um objetivo comum, a uma meta segura para todos. Recordo as palavras do Papa Francisco quando da sua eleição ele dizia: “Um dos títulos do Bispo de Roma é Pontífice, isto é, aquele que constrói pontes, com Deus e entre os homens.
Desejo precisamente que o diálogo entre nós ajude a construir pontes entre todos os homens, de tal modo que cada um possa encontrar no outro, não um inimigo nem um concorrente, mas um irmão que se deve acolher e abraçar. Neste trabalho, é fundamental também o papel da religião.
Com efeito, não se podem construir pontes entre os homens, esquecendo Deus; e vice-versa: não se podem viver verdadeiras ligações com Deus, ignorando os outros.
Por isso, é importante intensificar o diálogo entre as diversas religiões, para que jamais prevaleçam as diferenças que separam e ferem, mas, embora na diversidade, triunfe o desejo de construir verdadeiros laços de amizade entre todos os povos”.
Esse é o maior desafio de toda sociedade, das igrejas, das religiões. É inconcebível para os tempos modernos, viver de concorrência na política, na Igreja, entre as religiões.
Em nenhum setor da convivência humana deve existir o maior, o mais perfeito, o mais importante, o salvador da pátria. Deve primar sempre para ser o melhor, fazer o melhor, buscar o melhor para o bem de todos, onde todos tenham o direto de ser e se manifestar, sem concorrência ou privilégios.
Na medida em que cada um busca a própria satisfação e a salvação dos seus interesses pessoais, a coletividade sai perdendo. “De que adiante ganhar o mundo inteiro e vier perder a sua alma? (Mc. 8,36).
A maior satisfação é ver a felicidade reinar em todos os corações, onde as necessidades são atendidas e trazem um sentimento de realização pessoal. Por isso toda a liderança está sempre dirigida para a construção do bem comum, sendo o melhor, o mais competente, o mais justo, o mais leal, o mais ético, o mais digno da autoridade que lhe foi confiada.
São tempos difíceis, são tempos para construir pontes, estabelecer laços de igualdade, de viver as diferenças como caminho de encontro, buscando o que nos une e nunca o que nos divide.
A religião tem um papel fundamental nesta nebulosidade política e social, pois precisamos re-ligar a nossa limitada condição humana, com o Pai Deus que nos fez à Sua imagem e semelhança, encontrando nesta relação o sentido verdadeiro do nosso peregrinar terrestre. Sem essa relação com Deus, nos tornamos estéreis, perderemos os valores éticos e morais, a vida não tem sentido, tudo não passa de um sonho. Vamos construir pontes e não atalhos.

Para onde vai a política brasileira?

Cardeal Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo


Há meses, acompanhamos o desenrolar de uma profunda crise política, que caba de ter como consequência o afastamento, ainda temporário, da Presidente da República e a formação de um novo governo.
Que dizer, diante dessa situação? É difícil fazer uma avaliação serena e objetiva, uma vez que o conhecimento dos fatos e dos motivos de decisões tomadas nem sempre está ao alcance de todos; além disso, a paixão política e ideológica pode turbar a objetividade das discussões. Mesmo assim, e apesar das perplexidades suscitadas, cada brasileiro foi formando sua opinião. A meu ver, o Brasil passa, a duras penas, por um amadurecimento político que terá consequências benéficas.
Muitos perguntam sobre a posição da Igreja Católica diante da crise. A esse propósito, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, durante a sua recente assembleia geral, em abril passado, emitiu uma declaração, com a posição do episcopado. O texto não entra propriamente no mérito das acusações feitas à Presidente, reconhecendo que esse papel cabe às instâncias competentes da vida pública nacional.
Em matéria política, os cidadãos têm o direito às suas próprias opiniões e, por isso, nem a Igreja Católica não obriga a aderir a uma posição única. No seio da própria Igreja, tratando-se de questões políticas, existe uma legítima diversidade de posições, contanto que não estejam em desacordo com as convicções da própria fé cristã. Vale lembrar um antigo dito, atribuído a S.Agostinho: “no essencial, unidade; no secundário, liberdade; e em tudo, caridade”.
No entanto, os bispos manifestaram preocupações em relação ao cenário político, econômico, social e ético e apontaram critérios e referências importantes a serem levados em conta na busca da superação da crise brasileira. Para que serve a política? Ela deve respeitar critérios éticos? A atual polarização política atingiu níveis nunca antes vistos no Brasil e chega a passar a impressão de uma torcida apaixonada, na qual se quer, a todo custo, a vitória de um ou de outro lado. A política pode despertar paixões inflamadas, sobretudo quando é motivada por ideologias fortemente arraigadas; pode até mesmo tornar-se paixão cega e fanática, capaz de turbar a paz social. Não vai por aí o ideal da ação política, à qual se reconhece um papel essencial na edificação do convívio social e da paz.
Depois da tempestade, a bonança permite olhar com mais serenidade o cenário e retomar a reflexão sobre o que, de fato, importa para que a vida continue. Permito-me fazer alusão a alguns princípios fundamentais da doutrina social da Igreja, que deveriam iluminar a inteira vida política de um povo. Primeiro de todos, o princípio da dignidade da pessoa humana é a razão de ser e sustento a toda instituição e ação política, que seriam ilegítimas e espúrias se fossem contrárias à dignidade da pessoa humana, ou não fizessem caso dela. Como qualificar a ação política, que não fosse orientada fortemente pela promoção desse bem fundamental?
Vem, depois, o princípio do bem comum, que leva em conta a igual dignidade e os mesmos direitos fundamentais de todas as pessoas. A vida social e política deve estar orientada à consecução do bem de todos, e não apenas de alguns. A promoção do bem comum é dever de todos os cidadãos e de todas as instituições e autoridades públicas, É objetivo primário do Estado e de tudo aquilo que o representa.
Cabe ao Estado assegurar a coesão e a organização da sociedade civil, da qual ele é expressão máxima. Já ensinava o papa Leão XIII na primeira encíclica social (Rerum novarum, 1891) que o objetivo a vida social é o bem comum historicamente realizável. A promoção do bem comum é a própria razão de ser da autoridade política; se deixasse de estar orientada por essa motivação, ela teria deixado de cumprir sua missão primordial.
Outro princípio importante que deve orientar a vida social e política é a “destinação universal dos bens”; os bens existentes neste mundo destinam-se para o sustento de todos, “com o critério da equidade, tendo por guia a justiça e por companheira a caridade” (Gaudium et spes 69). Ninguém deve ser excluído, a priori, do uso dos bens   e nenhuma pessoa deveria ser privada do necessário para viver dignamente. Assegurar o acesso aos bens indispensáveis à vida digna para todos é uma das atribuições mais relevantes da política e de quem governa.
Necessário para ordenar e dinamizar a vida social e política também é o princípio de subsidiariedade, apontado já pelo papa Leão XIII, na encíclica antes citada. O poder do Estado e o exercício da autoridade não podem ser concentrados e sufocantes, mas precisam respeitar as múltiplas competências das instâncias intermediárias entre o cidadão e o Estado. Das organizações da sociedade civil surge um tecido social vivo e dinâmico, onde se expressam as pessoas e se traduzem os valores por elas cultivados. Toda pessoa tem o direito de participar da vida social e política. O poder concentrado no Estado empobrece e sufoca a sociedade, sua iniciativa, liberdade e responsabilidade.
E não pode ser ignorado o princípio de solidariedade. Há uma interdependência inequívoca entre todas as pessoas e povos, que vai ficando sempre mais evidente à medida em que cresce o fenômeno da globalização. O papa Francisco evidenciou, de maneira prática e inquestionável, na sua encíclica “Laudato sì” sobre as questões ambientais. O futuro da natureza e do planeta Terra, nossa “casa comum”, depende do cuidado de todos: para o bem e para o mal.
Difícil seria edificar o futuro do nosso país, sem levar em conta esses princípios basilares da vida social e política; nem mesmo a pluralidade dos partidos ou as divergências ideológicas poderiam prescindir deles.

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