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Secretário executivo da CNBB RO2 faz pronunciamento no Tribunal de Justiça sobre Suicídio

Pe. Jair Fante, Tribunal de Justiça
Agradeço a oportunidade de participar deste seminário sobre a Violência Interpessoal e Autoprovocada. Muito se falou aqui sobre os verbos acreditar e agir. De fato não basta acreditar nas boas ideias, tem que leva-las à prática; como dizia o filósofo Goethe: “toda ideia, por mais brilhante que seja, quando não levada à prática morre no nascedouro”.  O fato de colocar pessoas em diálogo direto já é elogiável em tempos de distanciamento como os nossos; ainda mais quando os assuntos são de tamanha grandeza e interesse comum como os aqui aludidos.

Este tema da “auto violência e o sentido da vida” traz à tona os elementos mais contundentes e emblemáticos do viver humano: a sua finitude e o sentido que a vida tem no seu fluir natural. O suicídio – auto violência elevada ao grau máximo – pode ser analisado segundo vertentes diferenciadas, tais como: a psicologia, a psiquiatria, a sociologia, a filosofia e a teologia - versão religiosa da análise. Mas em qualquer destes aspectos há de se considerar o ser humano na sua plenitude, isto é: em sua realidade biofísica, psicológica e transcendental. Em todos estes aspectos é notória a estranheza da atitude face ao direto mais básico e essencial de todo ser humano: o direito à vida. Quer a ideia de suicídio, a tentativa de suicídio ou o ato mesmo em si de tirar a própria vida depõem contra a razoabilidade vivencial.

O atentado contra a vida de outrem ou à própria vida sempre existiu, porém, em tempos de crises existenciais e desesperanças humanas, ele adquire graus bem mais elevados. Isto pode perceber-se já na Grécia Antiga com o fim das “cidades-estados”, ainda antes da era cristã; este fato foi também notório na decadência da Roma Antiga, onde os princípios e valores básicos da sociedade foram deixados de lado, assim como no período pós segunda guerra mundial com o descrédito do ser humano e seu desrespeito à vida. A ausência de uma visão transcendente e a falta de sentido da vida são o húmus apropriado para a fecundação do gérmen suicida. Assim o foi com a disseminação da filosofia iluminista de Diderot, enraizada nos séculos XVIII e XIX e, cujos efeitos, ainda se fazem ver. O homem “das luzes”, iluminado, autônomo e sem necessidade de nenhum amparo teológico e transcendente, sucumbia, em seguida, sob o peso de duas grandes guerras mundiais, trazendo em seu bojo, as mais deprimentes atitudes humanas em relação a outro ser humano, que foram os campos de concentração nazistas. O século XX tornou-se assim o mais sangrento da história humana.
O mundo sem Deus tornou-se inabitável. A “morte de Deus”, proclamada por Nietzsche, colocou o mundo à mercê da própria sorte. O que sobrou então foi o homem e a terra, sob um céu composto por apenas sol, lua e estrelas, mas totalmente vazio de qualquer sentido espiritual ou divindade. Uma sociedade dos “meios sem os fins”; um vasto corpo com uma alma esquálida ou, porque não dizer, sem alma. Em um mundo assim, tão “mundano”, o homem sentiu-se perdido, privado de seu centro gravitacional e de qualquer referência além de si mesmo. Fez a experiência do mais completo abandono, onde nada mais restou que a angústia, o vazio, a loucura e a depressão, antessala do suicídio. Uma cultura sem a noção transcendente do existir leva a uma vida desencantada que favorece, por sua vez, a depressão e suas consequências. Onde a vida se reduz ao nascer, crescer e morrer, o próprio ato de viver torna-se nada mais que um “caminhar para a morte”. Onde se tira Deus do mundo, sobra o homem; e quando se tira também a alma, sobra apenas o corpo com suas paixões e tormentos existenciais. Certamente, neste caso, vale ainda a máxima: quanto menos Deus, mais suicídio!

Nos dias atuais também se pode constatar este descompasso entre o desenvolvimento material – técnico e científico - e o desenvolvimento espiritual da sociedade, o que nos parece ser uma das causas primeiras da grande crise de sentido pela qual passa a sociedade atual.

O empobrecimento interior parece-nos inversamente proporcional ao enriquecimento exterior. Não é difícil perceber que o mundo moderno cresceu quanto aos “meios de vida”, mas diminuiu quanto aos valores e princípios e às “razões de viver”.

Hoje, as estatísticas sobre o suicídio são alarmantes: aproxima-se de um milhão de casos por ano no mundo, sendo que as tentativas de suicídio sobem para mais de 20 milhões. A cada 40 segundos uma pessoa se suicida, tornando este incidente mais grave que os homicídios e as guerras. É uma tragédia silenciosa que atinge todas as raças, classes sociais e idades.

No Brasil, a incidência é de 14 mil suicídios por ano. No Japão ocorre 26 suicídios a cada 100 mil habitantes e na Coreia esta taxa é elevada a 30 por 100 mil habitantes.  Os dados indicam também que o suicídio é a segunda maior causa de morte entre os jovens no mundo, depois dos acidentes de trânsito.

Sabemos que não é fácil trabalhar a cultura da paz em um país que alimenta a violência como esporte; basta ver a divulgação midiática do MMA, UFC, Bellator, etc. O incentivo ao enfrentamento entre torcidas de futebol também é muito comum; boa parte dos jogos de futebol acabam em pancadarias entre torcidas. Não vou me delongar falando das novelas, mas esta vergonha nacional é notória nas televisões brasileiras.

Para o sociólogo E. Durkheim, (livro “o suicídio”, São Paulo, Martin Claret, 2005), o suicídio é “todo o caso de morte que resulta, direta ou indiretamente, de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vítima, e que ela sabia que deveria produzir esse resultado”. Segundo este autor, há três características de suicídio:

• Suicídio Egoísta: aquele em que o ego individual se afirma demasiadamente face ao ego social, ou seja, há uma individualização desmesurada. Isto acontece quando as relações entre o indivíduo e a sociedade se afrouxam fazendo com que o indivíduo não veja mais sentido na vida, não tenha mais razão para viver;

• Suicídio Altruísta: aquele no qual o indivíduo sente-se no dever de fazê-lo para se desembaraçar de uma vida insuportável. É aquele em que o ego não o pertence, confunde-se com outras coisas que se situam fora de si mesmo, isto é, em um dos grupos a que o indivíduo pertence. Temos como exemplo os kamikazes japoneses, os muçulmanos que colidiram com o World Trade Center em Nova Iorque, em 2001, e que, em muitas outras circunstâncias continuam fazendo uso deste recurso dado sua discordância religiosa.

• Suicídio Anômico: aquele que ocorre em uma situação de anomia social, ou seja, quando há ausência de regras na sociedade, gerando o caos, fazendo com que a normalidade social não seja mantida. Em uma situação de crise econômica, por exemplo, na qual há uma completa desregulação das regras normais da sociedade, certos indivíduos ficam em uma situação inferior a que ocupavam anteriormente. Assim, há uma perda brusca de riquezas e poder, fazendo com que, por isso mesmo, os índices desse tipo de suicídio aumentem. É importante ressaltar que as taxas de suicídio altruísta são maiores em países ricos, pois os pobres conseguem lidar melhor com as situações. Alguns dados indicam que há três vezes mais suicídios em alguns bairros nobres de São Paulo do que nas periferias.
Assim, segundo Durkhein, mesmo uma decisão tão pessoal, quanto a de declinar da vida, traz em seu bojo as influências dos fatores sociais.
Em síntese, pode-se aferir que o suicídio é a última tentativa de comunicação da pessoa com o seu entorno. É uma estratégia para se livrar da dor ou livrar o outro do peso a que se tornou. O ser humano, de fato, nunca quer se matar, pois foi feito para viver; o que ele quer é matar a dor que carrega em si e que se tornou insuportável para si mesmo ou, segundo seu parecer, para os seus convivas.

Parafraseando Milton Nascimento, em “Coração de estudante”, digo que é preciso “cuidar do broto para que a vida nos dê flor e fruto”; sem mudar de atitude, sem “mudar de vida”, não é possível “mudar a vida”. É ilusório querer um futuro diferente fazendo sempre do mesmo jeito. É preciso, portanto, revitalizar na pessoa, o sentido da vida, pois, cada um tem que se haver com o sentido da sua vida e do seu desfalecer natural, do seu agir e do seu destino definitivo. Se estes elementos existenciais forem bem digeridos, no fluir natural da vida, mesmo se o sol se por em pleno dia, os olhos da fé farão ver bem além da escuridão; mesmo que a fonte material da vida seque, o rio não perderá a dimensão do mar; e mesmo que o horizonte se estreite, o viajante não perderá a noção do seu ponto de chegada, pois sabe muito bem, que seu barco caminha para um lugar seguro.
Que estas reflexões que hoje deste seminário emanam nos ajudem a melhor compreender o sentido da nossa vida e, destarte, possamos ajudar outros a encontrarem o sentido de suas vidas, pois, não basta o vento favorável se o barco desconhece a direção do porto.

Pe. Jair Fante
Secretário Executivo da CNBB – RO2


 

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